Pré-Concepção

MIELOMENINGOCELE

Achei importante que a nossa primeira conversa fosse sobre Mielomeningocele. Sabe por quê? Porque você pode preveni-la!

Bom, primeiro vou explicar a respeito da formação do Sistema Nervoso de um bebê, de uma forma bem simplificada.

Tudo começa com a formação de uma prega de tecido no dorso do embrião, nos primeiros dias de gestação. Esta prega vai formar uma espécie de cilindro, ou tubo (daí o nome tubo neural). Este cilindro, ou tubo neural percorre toda a extensão do embrião neste momento, e dará origem no futuro, à medula e os nervos que saem dela, bem como seus envoltórios: as meninges. Outros grupos de células juntam-se ao redor do tubo neural, dispondo-se em camadas, e embrulhando-o: estes tecidos darão origem à proteção da medula, ou seja, aos ossos da coluna vertebral. Em seguida, este tubo começa a se fechar e a se condensar, bem como as estruturas que o protegem. Este fechamento acontece do centro do tubo neural para as extremidades.Ou seja: o início e o fim do tubo neural fecham por último.Este fechamento deve se completar entre o vigésimo e vigésimo oitavo dia de gestação. A partir deste evento, a medula, cérebro, cerebelo, nervos e todas as outras estruturas nervosas serão formadas.

Pois bem. Para que este complicado marco na vida do embrião seja bem sucedido, e todos os seus órgãos nervosos se desenvolvam de forma saudável, é necessário um mecanismo extremamente complexo de genes, proteínas e nutrientes, que a ciência está começando a identificar...
Então, o que acontece quando um destes mecanismos falha?
Bem, uma das conseqüências conhecidas é a chamada Mielomeningocele.

A Mielomeningocele é, portanto, uma falha no fechamento do tubo Neural. Esta falha pode ser pequena, moderada, ou grande, e como pode acontecer em qualquer ponto do tubo neural, no bebê pode se manifestar como uma lesão cefálica (com malformações no crânio), cervical, torácica ou lombo-sacra (sendo esta a mais comum). Pelo que discutimos, é mais fácil agora imaginar o quão grave pode ser este defeito: se o tubo neural não fechar adequadamente, as estruturas que se originam nele poderão ser malformadas, tracionadas, e expostas.Expostas não somente ao líquido amniótico na barriga da mãe, como também ao ambiente, quando o bebê nascer: em geral, ossos e pele também são malformados e não conseguem cobrir o tecido nervoso.

A ciência sabe exatamente por que ocorre a Mielomeningocele? Ainda não. Há muitos excelentes pesquisadores trabalhando com hipóteses genéticas, nutricionais e ambientais, mas sem nenhuma resposta conclusiva exceto: o ÁCIDO FÓLICO. Sabemos que o ácido fólico é uma vitamina que faz parte do complexo B e é fundamental para a boa formação do tecido nervoso. Seu impacto em diminuir a incidência de Mielomeningocele é marcante, desde que tomado a partir de 03 meses antes da concepção em dose maior que 5 mg ao dia. Isso mesmo. Tal fato é crítico, porque vimos que o tubo neural se fecha de 21 a 28 dias após a concepção, quando a maioria das mulheres nem desconfia que está grávida... Ou seja, o tempo de prevenção já passou, não vai haver nenhum impacto marcante em tomá-lo após este período.

O que fazer então?A resposta é prevenção. Todas a mulheres em idade fértil, planejando uma gravidez em breve ou não deveriam tomar ácido fólico, especialmente as que tomam anticonvulsivantes, hipoglicemiantes orais e outras medicações que diminuem os níveis de ácido fólico no organismo, aquelas que têm histórico da doença na família ou que já tiveram um bebê com Mielomeningocele. Embora alimentos como vegetais, frutas e grãos ofereçam o ácido fólico, a dose não é suficiente para evitar a mielomeningocele. Recomenda-se 5mg ao dia, que pode ser conseguido através de suplementação vitamínica, sempre sob orientação médica. Em países desenvolvidos, onde a suplementação de ácido fólico é obrigatória, diminuiu-se em 75% a incidência de Mielomeningocele. No Brasil, desde julho de 2004, todas as farinhas de milho e de trigo estão enriquecidas com ácido fólico e ferro por força de lei federal (Resolução 344, da ANVISA, órgão do Ministério da Saúde).Cabe a nós fiscalizarmos e denunciarmos irregularidades.

Bem, por ora encerro este artigo, para que eu não “bombardeie” você com muitas informações. Este artigo terá uma continuação, onde explicarei o quadro clínico, e cuidados com as crianças com Mielomeningocele. Espero que de tudo o que você leu, guarde estas palavras: PREVENÇÃO e ÁCIDO FÓLICO!


Dra. Valéria Marques Figueira Muoio
CRM 97485
Neurocirurgiã Pediátrica
Doutoranda no Departamento de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Médica do Instituto Neurológico de São Paulo
Contato: valeria.neurologia@mae24horas.com.br